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rogério daflon…

Crônica de segunda

A pauta atropelou o repórter urbanista

por Joaquim Ferreira dos Santos

O repórter Rogério Daflon, formado em urbanismo, escreveria com mais propriedade sobre a violência da cidade, mas na semana passada, aos 55 anos, ele foi atropelado por essa violência urbana carioca e não pode mais contar o que está na cara – ficou difícil andar por aqui.

Rogério foi atropelado por uma motocicleta enlouquecida na Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, e tenho certeza que como repórter ele não desprezaria o fato de ter sido jogado ao chão em frente ao palácio Guanabara. É o bunker sombrio de onde reina um falso machão com faixa de louco ao peito e fuzil de mira telescópica procurando um alvo qualquer. Daflon sabia das coisas. Nada é pura coincidência.

Como urbanista interessado na poesia de tornar a cidade mais amável, de fazer com que o progresso seja bem-vindo e dialogue com a tradição, Rogério Daflon percebia em seus textos que o caos está indo longe demais. Nunca foi tão fácil morrer à toa. Há uma evidente autorização do governador de nome esquisito, que assistiu do palácio a morte de Daflon sem uma nota de pesar, para que a ignorância e a perda das referências culturais se alastrem como uma hera maldita. Semana passada, no mesmo dia da morte de Daflon, WW desligou 25 inibidores de velocidade.

O Rio de Janeiro já teve Garotinho, Benedita, Rosinha, administradores sem noção de seus afazeres. Dessa vez a violência da bandidagem tradicional junta-se a uma geração de políticos interessados em matar a cidade que eles não compreendem e, por isso mesmo, odeiam. Há o que tenta acabar com o carnaval, o outro que persegue culto afro-religioso e o outro ainda que, diante da impressionante multidão de mendigos jogados nas calçadas, orgulha-se de que não passam fome, não são esqueléticos como os de outros países. Euclides da Cunha dizia ser o nordestino antes de tudo um forte. Agora, o forte é o mendigo.

O repórter urbanista, especializado na apuração de assuntos da cidade, morreu atropelado pela pauta do trânsito descontrolado, uma avenida sem lei onde os guardas responsáveis estão entretidos no celular e vale aos motoristas a velocidade que eles estabelecerem como válida, todos autorizados pelo senso comum dos desatinos a não pararem no sinal vermelho porque, no Rio, todos sabem, esse troço de sinal vermelho é mais um truque baixo da bandidagem para assaltar quem obedece – e carioca ixperto não cai nessa.

Há vilões urbanos se revezando por todos os lados, crateras monumentais nas calçadas, lixo caindo das caçambas, uma tensão constante, o horror, o horror. As reportagens de Daflon miravam tais vilanias urbanas. No verão foi a patinete na calçada. Agora chegou a vez dos entregadores de iFood e suas bicicletas kamikazes tornarem o horário de almoço um novo espetáculo de insanidade. Não dá mais para andar distraído, esse requisito fundamental que uma cidade civilizada precisa oferecer a seus moradores. E foi assim, em meio ao estresse das ruas, que a fúria do trânsito atropelou sem prestar socorro o repórter urbanista cujo traço mais evidente de perfil era a leveza e os bons modos.

Rogério Daflon passou a vida cumprindo pautas. Buscava respostas para o drama urbano carioca. Foi mais uma vítima dele.

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fly me to the moon…

No dia em que dois parentes genéticos anglo-saxões do macaco iam pisar na  Lua com o pesado emborrachado de suas botas brancas, o Rio amanheceu lindo. Deu praia e tudo. Sem culpa, era domingo. Oficialmente, ninguém fez as contas para saber qual dos assuntos do dia foi mais discutido nos botecos e feiras livres do subúrbio carioca da Leopoldina: a tal história da  Lua e da Apollo 11ou quem ia ganhar mais um Fluminense e Vasco, no Maraca?

As notícias do jornal sobre a chegada na  Lua e o Fluminense x Vasco, eram de véspera, puro pão dormido. A tevê brasileira era tosca, primitiva, ágil como bêbado com labirintite. Afogada num vergonhoso atraso tecnológico e estético, não era páreo para qualquer televisão de verdade, como a inglesa BBC e as americanas NBC ou CBS. Sobrava para o rádio, sempre confiável para contar as coisas no momento em que viravam coisas.

Com tempo até para um tranquilo almoço ajantarado, o resto do domingo está pronto para partir ao meio a emoção de todo um planeta. Primeiro, meio da tarde, a cápsula lunar Eagle – o nosso carcará – tinha local e hora marcada para alunissar na superfície cor de Flicts da  Lua. Aí, por volta de 6 horas e 39 minutos depois, às 23h56 do horário brasileiro, o comandante Neil Armstrong ia abrir a porta, descer a mais cara escadinha de todos os tempos e ser o primeiro cara a pisar na  Lua. Na frente de uma câmera especial de tevê que ia mandar tudo para as televisões nas nossas casas.

Valeu o que estava escrito pela Nasa. Num foguete de 110 metros de comprimento, da altura do Edifício Avenida Central com seus 34 andares, três americanos saíram da Flórida e foram até a  Lua, onde dois deles, Neil Armstrong e Buzz Aldrin, deram uma descidinha de duas horas e 31 minutos, recolheram 21 quilos e meio de pedregulhos, voltaram para junto de Michael Collins para capricharem na meia-volta volver, e aí encarar o tão esperado caminho de casa.

A epopeia toda duraria oito dias, três horas, 18 minutos e 35 segundos – tempo entre o lançamento no Cabo Canaveral e o murchar dos enormes paraquedas no Pacífico, 18 quilômetros do USS Hornet, navio escalado para recolher os astronautas. Tom Jobim ficou curioso e quis saber se aquela aventura lunar com final feliz tinha convencido o amigo poeta Vinícius de Moraes a perder o medo de andar de avião. Contou, na varanda do Antônio’s, restaurante da moda no Leblon: “Até já sabia a resposta do poetinha, medroso como ele só. Mas queria mesmo era ouvir mais uma vez sua deliciosa e covarde lenga-lenga de quem já tinha escapado de um desastre de avião. Em 1946, um hidroavião da Air France, ele e o Rubem Braga dentro, sofreu um acidente e caiu no Uruguai. Vai me dizer, Tomzinho, Armstrong ou Gagarin, o avião continua mais pesado que o ar, ainda é movido por um troço chamado motor a explosão e foi inventado por um brasileiro. Pior, as oficinas ficam na terra e os defeitos acontecem no ar.”

Eram 5 e pouco da tarde carioca. O Tigre da Esso dava seu recado na tevê ligada, se bobear, com chumaço de Bombril enfiado na pontinha da antena interna para melhorar o sinal da (quase sempre) péssima imagem vigente. No ar, a programação normal de domingo. No Canal 2, a Excelsior, com sede lá onde tinha sido o cinema Astória, Ipanema, passava A Chuva Continua, com Cesar de Alencar. No 4, TV Globo, primeiro lugar do Ibope no horário, Sílvio Santos conversava com um sr. Barroso e uma dona Laura, que estavam namorando. Duas go-go girls dançando adoidadas em pleno Canal 9. Lá na beira da praia de Copacabana, Posto 6, a TV Rio, Canal 13, mandava ver num programa de auditório. No térreo, à direita de quem entra, o auditório considerado histórico por ser palco do domingueiro e falecido TV Rio Ring – um programa de pancadaria –, com sua equipe famosa, Luiz Mendes como narrador, Leo Batista, apresentador de ringue e Téti Alfonso como comentarista.

Mas na hora do dá ou desce lunar, só a TV Tupi, Canal 6, estava falando do assunto. Rubens Amaral, Gontijo Teodoro e Heron Domingues estão se cumprimentando. Vai ver porque só eles estão no ar com a programação da chegada à  Lua. Destaque para Rubens Amaral com um fone espetado num Zenith Trans Oceanic, o melhor aparelho de rádio portátil para pegar ondas curtas.

É domingo, 20 de julho de 1969. Nos relógios da Central e da Mesbla, 5 horas e 17 minutos da tarde. Para Houston, 20 horas e 17 minutos, UTC, o Tempo Universal Coordenado, criado para não bagunçar os horários em todo o mundo. Lá em cima, os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin mandam avisar que acabaram de alunissar o módulo lunar, Eagle, na poeira grudenta do Mar da Tranquilidade, Lua. No exato momento em que, no Maracanã, a bola está com Denilson – para Nelson Rodrigues, o Rei Zulu, volante bom de passe do Fluminense –, jogo com o Vasco, lembram?

O jogo está 0 x 0. Em Salvador, Ipiranga 1 X Galícia 0. Com dor de corno pela vitória americana sobre a União Soviética, a Rádio Havana, sei lá por que em italiano, convoca: “Neste momento devemos nos unir a todo o proletariado do mundo capitalista para liberar todos os povos do mundo!” Bola cai no fosso entre o campo e a geral do Maraca, Mário Vianna aproveita a demora para comentar, no seu impuro português castiço: “Estas duas agremiações que é Vasco da Gama e Fluminense…”

A elite musical que ouve a rádio Jornal do Brasil não sabe de nada – nem do jogo, nem da  Lua. Parte dela acompanha agora a corrida de cavalo, todos excitadíssimos quando o locutor oficial do Hipódromo da Gávea, Teófilo de Vasconcelos, solta seu tão esperado “contornam a curva de chegada e entram na reta final!” Depois de toda chegada, o primeiro anúncio é do patrocinador: “Máquina de costura Husqvarna Bemoreira, que dura uma vida inteira, rua Luiz de Camões, quatro dois, 42!” Outra sofisticada ignorância vem dos melômanos e amantes do fantasma de Roquette-Pinto, do Ministério da Educação.

Meio tempo. Rádio Continental, a que está em todas, 100% esportiva e 100% informativa, responsável por arrancar o radiojornalismo do estúdio e das notícias lidas de longe dos acontecimentos, para buscar o imediatismo que só a reportagem externa podia oferecer aos ouvintes. Para isso, Carlos Palut criou os Comandos Continental. “Os Comandos Continental usam carros Dodge porque não podem parar nem falhar. Dodge, o máximo em qualidade e rendimento em automóveis.”

A Rádio Continental começa então a comentar o primeiro tempo de Fluminense e Vasco. “São duas equipes de envergadura e não se viu nada. Entrada de Fernando no lugar de Adilson.” Corta. Do estúdio, um locutor relembra, “Como já anunciamos, chegamos na  Lua. Aí está o trabalho da nossa central técnica: admirável, é fantástico, é extraordinário, sem dedicação não se conquista nada. A Continental poderá oferecer um trabalho perfeito, dependendo, claro, da recepção da transmissão da Voice of America. De qualquer maneira, estamos na jogada!” E completa, devolvendo a bola para a equipe do futebol: “Você e Clóvis estarão, daqui a pouco, transmitindo da  Lua: Brahma na jogada!” Quem toma a palavra agora é o Carlos Marcondes: “Lamentamos não poder, neste intervalo, repetir aquilo que os amigos torcedores estão habituados a ouvir: a retransmissão dos gols. Mas se ninguém fez gols, três homens chegaram à Lua!”

Na tevê, o programa especial para flagrar Neil Armstrong tocar pesado no solo lunar começou, em ponto, às 10 da noite.

No Museu de Arte Moderna, a noite foi uma bagunça só. Numa sala do terceiro andar, ar condicionado, mordomias sólidas e líquidas – podia-se fumar, menos charutos cubanos –, um convescote oferecido pela Embaixada Americana a convidados graduados. Para nós locais, a plebe rude e ignara, o amplo térreo e o jirau criados pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy colocavam gente pelo ladrão; calor da casa do Bode-preto, o 666, perdia. De repente e do nada, na tela enorme pendurada do teto, chegou de Houston um desenho do homem na  Lua. Um afoito técnico distraído, responsável pelo som local, logo encheu o ambiente com a conhecida Stars and Stripes Forever, a Marcha Nacional dos Estados Unidos, do John Philip Sousa. Tirou correndo quando se deu conta de que o tal desenho tinha sido gerado por uma emissora japonesa – a portinha do módulo continuava fechada, ainda não era hora de Hino. Para quem não se lembra, John Philip Sousa, o rei da marcha militar americana, tem a ver com a gente. Era filho do português João António de Sousa, trombonista da Banda dos Fuzileiros.

Há muito no ar, a imagem vinda da  Lua tinha uma qualidade péssima. Só se sabia que aquilo, estático, esbranquiçado e fora de foco, era o Carcará deles, estacionado na  Lua porque um locutor da Nasa tinha avisado. Como estacionada estava essa imagem no telão do MAM. A descida do homem na Lua foi se arrastando (já passava das onze), nada do Armstrong dar as caras – no caso iam ser as pernas – e a multidão no MAM começou a vaiar, bater com os pés no chão e a gritar, “olha a hora!” como quando atrasa a função do circo. “A superfície selênica…” tronava o áudio da tela grande quando a imagem começou a correr num frenético sobe e sobe e a turma desandou a vaiar e a gritar: “Bicha! Bicha! Bicha!” O socorro veio com uma imagem local, gerada pertinho, da Urca, pela TV Tupi. Ela supriu um total vazio técnico da transmissão americana com um desenho animado bem antigo da nossa chegada à  Lua. Fazia mais calor no MAM do que na cápsula do Apollo 11 no momento da reentrada na atmosfera terrestre. Por uma dessas coisas do Brasil, Magalhães Pinto apareceu na tela para receber uma vaia tremenda. Quem mandou? Duas horas, em pé, esperando o homem pisar na  Lua e uma constatação: como no Rio tem gente que estudou nos melhores colégios da cidade sem a menor educação.

No telão, uma salada de imagens vindas de Houston, do Japão, mas a plateia gostava mesmo quando apareciam a TV Tupi e a TV Globo. Também palmas quando o Tigre da Esso ou a Embratel enchiam o telão. A demora do momento tão esperado pelo mundo todo fez o carioca ser bem carioca. A seriedade do momento foi para o espaço. Os gritos, os palpites em voz alta, as piadas com os astronautas tiraram aquela plateia do sério. Virou uma zona. Sem nada com isso, Rubens Amaral começou a imitar o jeito e a postura do jornalista e apresentador do principal noticiário da tevê americana, Walter Cronkite, da CBS. Com uma importante diferença. Enquanto Cronkite ia enchendo o tempo de espera com informações, dados e histórias daquele primeiro voo à  Lua, o brasileiro só repetia, “Dentro de alguns segundos, dentro de alguns segundos”. Um saco.

Finalmente, a imagem que esse planeta inteiro esperou, com ou sem paciência, durante todo aquele domingo, 20 de julho de 1969: Neil Armstrong dando um pulinho da escada presa ao módulo lunar e tocando o chão da  Lua. Só que quase não deu para ver qualquer coisa, ninguém sabia o que eram aquelas manchas esbranquiçadas espalhadas naquele pomposo telão. Tem mais: a recepção era péssima e ficou impossível escutar o que estava acontecendo porque os quatro apresentadores brasileiros não calaram a boca. Todos falando ao mesmo tempo, excitados como pré-adolescentes vendo um filme de sacanagem pela primeira vez.

Meia-noite e quatro minutos: Heron Domingues conta a vida dos astronautas. A TV Tupi achou mais importante mostrar a cara redonda de Heron do que qualquer outra imagem do que podia estar acontecendo em Houston.

Heron, que tem Houston na ponta do ouvido, perguntou a Rubens Amaral:

“Você tem condições de traduzir esta entrevista de Houston?”

“Não, ela não tem nada de importante.”

Pouco depois, Rubens Amaral, distraído como ele só, percebe que a tal entrevista é dada por três japoneses falando japonês – um mistério não menor do que o italiano falado pela Rádio Cuba. Apressa-se então a mudar a resposta que tinha dado. Meio constrangido, confessa pro Heron:

“Eu não sei falar japonês…”

Ninguém merece. O jeito foi ir embora para casa.

JOÃO LUIZ DE ALBUQUERQUE

Repórter, trabalhou para veículos como Revista Manchete, Fatos e Fotos, IstoÉ, Jornal do Brasil, Última Hora e O Globo.

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jaz coleman & gastão…

essa fotoca que a xeretinha captou de jaz coleman/killing joke (londres/setembro1986) esteve AQUI no tico em agosto2015 e está voltando para ilustrar a estrogonófica entrevista de gastão moreira com o próprio JC…

vale muito conferir todos os detalhes apresentados… D+

uma saudação MEGA especial ao possante gastão, exemplo definitivo para que os novatos não se envolvam com os “entendidos” do google… afinal, as drogas matam. manja?

já estava no osso e, agora, o rato comeu (ou menos uma)…

Carlos Massa, o Ratinho, é o novo dono da rádio Estadão FM, 92,9 MHz. A informação foi confirmada pelo empresário nesta segunda-feira à coluna do Flávio Ricco. Nos últimos dois anos, a emissora esteve nas mãos da igreja Comunidade Cristã Paz e Vida, que desde então implantou nesta frequência uma rádio cuja programação é direcionada ao público evangélico e passou a atender pelo nome Feliz FM.

Existiram tentativas, por parte dos religiosos, em adquirir o prefixo, através de campanhas de arrecadação junto aos fiéis, mas não chegaram ao valor necessário.

Ratinho confirma a compra, por volta de R$ 50 milhões, e disse que dentro de um mês irá assumir a emissora, para transformá-la na sede principal da Rede Massa de Rádio, hoje com mais de 40 emissoras. “Estou bastante feliz. Era um sonho de muito tempo ter uma rádio em São Paulo”.

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mamãe, pra lá de 40 emissoras nas mãos da rataiada… PQP

UFA! (ou cacau mostrando de onde vem o apito do trem)…

‘Se eu pudesse, ninguém saberia nada sobre mim’, diz Cláudia Abreu

Em cartaz no teatro adulto após hiato de 20 anos, atriz ensaia série de suspense para o Globoplay, escreve sua primeira peça e diz que se tornou exceção ao ter quatro filhos: ‘Virei tipo Guinness’
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RIO – A frase acima poderia soar blasé se não saísse da boca de Cláudia Abreu. Conhecida pela discrição, a atriz sempre se preocupou em chamar mais atenção com os personagens do que com a vida pessoal.

– Quanto menos dados tiverem sobre você, mais embarcarão na ficção -, acredita.

Mas nem sempre ela consegue. Dias atrás, uma foto sua de biquíni estampava um site de celebridade, que destacava sua “excelente forma física, aos 48 anos”. A maturidade ajudou a ligar o botão do dane-se nessas situações.

– Deixei muito de ir à praia. Hoje, não tô nem aí, me libertei.

A atriz só quer gastar energia com o que considera importante. Como refletir (e fazer refletir) sobre a falência da humanidade em “Pi — Panorâmica insana”, em cartaz no Teatro Prudential. Colagem de cenas que espelham o caos, a intolerância e o clima depressivo que devasta a sociedade, o espetáculo marca a volta da atriz ao teatro adulto depois de 20 anos. O exercício tem feito bem não só a ela, como ao público, convidado a gritar, ali, o que está entalado na garganta “em vez de destilar ódio pelas redes sociais”.

– Tive a ideia em Curitiba, cidade do Moro e onde Lula está preso. O lugar é a síntese do país dividido, e o convite para o grito, democrático -, diz ela, que não tem Facebook nem Twitter, só Instagram profissional.

A peça despertou a a vontade de não sair mais do palco. Tanto que ela já escreve um espetáculo sobre Virginia Woolf, que marca seu début como autora teatral.

Criada nas areias do Leblon pela mãe funcionária pública, Cacau, como é conhecida pelos amigos, é filha caçula de três irmãos e sempre foi a síntese da garota carioca Zona Sul. Mas não aceitou fazer sempre o mesmo papel na carreira, que iniciou aos 15 anos, no Tablado. Encarnou, entre vários outros, uma retirante nordestina, em “Caminho das nuvens”, e uma cabeleireira suburbana, em “O homem do ano”, longa dirigido por seu marido, José Henrique Fonseca, com quem está há 22 anos. Mãe de um “portfólio de filhos” (Maria, de 18 anos, Felipa, 12, José Joaquim, 8, e Pedro Henrique, 7), se interessa mais em crescer do que aparecer. Quando engravidou pela primeira vez, aos 30 anos, foi cursar filosofia. É estudiosa também na composição dos personagens (faz até playlists), mas aposta no instinto na hora do jogo cênico. Quando a barra da vida pesa, descarrega na natureza. Só toma banho gelado e tem como referências as atrizes Marília Pêra, Renata Sorrah e Drica Moraes. Ex-musa dos caras pintadas, se posiciona politicamente quando acha necessário — como agora, por exemplo.

“O que estão fazendo com a cultura adoecerá a sociedade. “Nem os conservadores, a favor dessa nova forma de poder, suportariam a realidade sem arte, é asfixiante”.

O ser humano não deu certo? Consegue ser otimista?

Não deu certo. Temos usado a inteligência para a violência e perversidade. É um canibalismo simbólico, ódio, cobiça e poder. Governos que desmerecem o que o anterior fez de bom, um eterno começar de novo. Mas sou otimista, não alimento os momentos down . Fico o tempo necessário para ser profunda, mas depois busco e positividade.

Como será a série “Desalma”, escrita por Ana Paula Maia, dirigida por Carlos Manga Jr., e que vai ao ar, no ano que vem, pelo Globoplay?

Flerta com suspense e terror. Faço uma mulher com desequilíbrio psíquico, que tem caso sobrenatural na família. Estou lendo bastante sobre depressão e assisti à série “Dark”, como referência.

Como surgiu a série infantil “Valentins”, que a Zola, sua produtora com Zé Henrique, seu marido, fez para o canal Gloob? E do que se trata sua primeira peça?

Sempre inventei histórias para meus filhos dormirem e, como eles gostavam, me animei. Faço uma aula com Carmen Hanning ( mestra em literatura ), e ela disse que o que eu estava escrevendo tinha a ver com Virginia Woolf. Voltei aos livros dela e tive uma identificação imediata, cumplicidade. A peça será em cima da literatura e da vida dela.

O que a leva a aceitar um papel? Já escolheu errado?

Meu norte é a intuição, entender se aquele trabalho é para mim. É preciso estar forte para fazer algo forte, porque o instrumento é você. Todas as vezes que aceitei papel para agradar alguém, não fui feliz.

Sua novela mais recente, “A lei do amor”, foi considerada um fiasco. Encara como fracasso?

Deu errado para todos, ali nada deu certo. Mas foi bonita a postura coletiva de não desanimar. Quando fiz minha primeira protagonista, aos 20 anos, em “Barriga de aluguel”, Daniel Filho me disse: “Quando dá certo, é ótimo para todos. Mas quando algo não vai bem, a primeira a dar o tom é você, sua postura é que determinará o clima”. Nunca esqueci disso.

De onde vem sua fama de arredia?

Havia aquela cultura da revista de celebridade, e eu nunca quis ir para ilha, mostrar casa, filhos. Já me exponho no trabalho, estou ali a serviço de todo tipo de situação. Preciso de mistério. Que confidência sobraria para fazer a uma amiga? Fica tudo tão gasto. Não tenho porque fazer análise em público. Análise, eu pago e… guarde bem os meus segredos ( risos ).

Você é super amiga do Fábio Assunção. O que achou dos memes que fizeram dele ?

Um absurdo. As pessoas perderam a educação, o respeito, a noção compaixão. Será que é um fenômeno brasileiro? Alguém fez o mesmo com o Robert Downey Jr? Fazer máscara de carnaval? Quem acha graça disso?

Como lida com a passagem do tempo?

Comecei a trabalhar cedo, tive que amadurecer logo. É como se tivesse ficado velha muito cedo e começasse a rejuvenescer de espírito. As pessoas só falam do tempo de forma negativa, de rugas. Fora o que não tem jeito, a idade ajuda a nos libertar de ansiedades e grilos. É tão bonito poder ser uma mulher de verdade e não de plástico, que não quer ter idade. Mas me cuido, vou ao dermatologista, tiro mancha, uso laser…

Mas sempre teve esse estilo natural, de garota carioca…

Adoro Havaianas, jeans, vestido longo, saião e o meu passado “hippiezinha do Tablado”. Nunca quis montar uma imagem pública. Se eu pudesse, ninguém saberia nada sobre mim. Se isso não fosse antipático e impossível, hoje, com a internet. O ideal para o ator é que não se saiba com quem é casado, quantos filhos, ideologia política. Há várias atrizes que têm três filhos. Tive quatro e virei a exceção, tipo Guinness.

Te incomoda ter a imagem muito ligada à maternidade?

A culpa é um pouco minha, sou apaixonada, falo dos meus filhos. Mas as pessoas passaram a se relacionar comigo muito nessa questão. Entro em cena e já pensam: “Nossa, mas ela é mãe de quatro filhos, casada há mais de 20 anos, flamenguista…”. Vem todo esse julgamento. Se você se posicionou politicamente então…

O que te fez a mulher que é hoje?

Ver minha mãe lendo livros e o fato de ela ser amorosa. Me deu a segurança emocional de saber que eu tinha com quem contar. Ela sempre foi politizada, independente financeiramente e emocionalmente. Preservo minha individualidade. Me dedico muito aos meus filhos, mas minha individualidade acontece quando vou trabalhar, que é quando tenho tempo pra mim. Não posso me dedicar e depois jogar na cara. Quando eles dizem “queria que você não trabalhasse”, respondo: “A boa mãe é a mãe feliz”. Se ficasse só em cima deles, viraria uma chata, iam querer me ver pelas costas.