tristeza

peart & aTRIPA & ainda o #368…

Assunto: Neil Peart subiu =/

“Feliz ano novo, Mauval! Eu tava devendo este e-mail desde a virada do ano, mas o trabalho e a rotina me sugaram, infelizmente. Somado ao meu relapso, claro…

E decidi que deveria te escrever hoje. Ainda estou digerindo a morte do lendário Neil Peart desde sexta-feira, já chorei feito criancinha desde então…

Sei que Rush não está muito no radar do Ronca, mas eu só precisava mesmo escrever esse desabafo pra outro amante de música, como você. Cara, Rush foi o primeiro show que vi na minha vida, lá no distante 2002. Puta que parola, eu só tinha 16 anos! Quanto tempo, mas me lembro daquele dia do começo ao fim. Tremi igual vara verde quando eles subiram ao palco, muito foda. Tive a sorte de vê-los outra vez em 2010. Que privilegiado eu sou!

Fui apresentado a essa santíssima trindade pelo meu melhor amigo que conheço desde 1999, ele também ficou arrasado. Enfim, são muitas e muitas memórias da minha vida relacionadas a eles.

Mauval, me faça chorar outra vez. Fale um pouco dele, toque qualquer música do Rush, pode ser qualquer uma comercial. É a primeira vez em que vejo um ídolo morrer, ainda não sei como lidar. Admito que até mantinha uma grana reservada pra me mandar pro Canadá numa emergência, porque eu jurava que haveria um show de despedida. Isso não vai acontecer mais =/

Neil Peart era um cara muito especial, incrível, um grande ser humano (nem vou entrar nos méritos dele como baterista e letrista. É chover no molhado). Ele merece uma menção honrosa, e não o ostracismo dado pelos canais daqui…

Um abração!!!!”
Rafael

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Assunto: Neil Peart – 1952-2020

“Fala Mauval,

O melhor baterista de rock do mundo se foi e ninguém colocou nada no site? Qual é dos estagiários?

Chorando essa perda desde a semana passada” 😭😭😭

Jair

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Subject: Gratidão pelo #368

“Com quase 3 semanas de delay, ouvi com comoção ô #368. Melhor programa não haveria para atender o pedido e presentão de aniversário dos Pistols, (antecipando o iminente verão carioca) Holidays in the sun. Ainda, com a inclusão no programa do prócer argento L. A. Spinetta,  na histórica parceria dele com outro grande, Pappo, na faixa executada no Ronquinha.

O que dizer de,  entre outras,  a memorável presença do Premê(ditando o breque) que, diga-se de passagem, merece ter apresentada em alguma edição de 2020 a obra prima “Feijoada total”.
Grato pela contemplação do pedido MauVal, agradeço o parabéns de inigualável Nandão – a quem retribuo com Saudações Rubro-Negras, e agradeço a boa companhia de sempre.
Um ótimo 2020 pra vocês!
Abração.”
Dario

rogério daflon…

Crônica de segunda

A pauta atropelou o repórter urbanista

por Joaquim Ferreira dos Santos

O repórter Rogério Daflon, formado em urbanismo, escreveria com mais propriedade sobre a violência da cidade, mas na semana passada, aos 55 anos, ele foi atropelado por essa violência urbana carioca e não pode mais contar o que está na cara – ficou difícil andar por aqui.

Rogério foi atropelado por uma motocicleta enlouquecida na Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, e tenho certeza que como repórter ele não desprezaria o fato de ter sido jogado ao chão em frente ao palácio Guanabara. É o bunker sombrio de onde reina um falso machão com faixa de louco ao peito e fuzil de mira telescópica procurando um alvo qualquer. Daflon sabia das coisas. Nada é pura coincidência.

Como urbanista interessado na poesia de tornar a cidade mais amável, de fazer com que o progresso seja bem-vindo e dialogue com a tradição, Rogério Daflon percebia em seus textos que o caos está indo longe demais. Nunca foi tão fácil morrer à toa. Há uma evidente autorização do governador de nome esquisito, que assistiu do palácio a morte de Daflon sem uma nota de pesar, para que a ignorância e a perda das referências culturais se alastrem como uma hera maldita. Semana passada, no mesmo dia da morte de Daflon, WW desligou 25 inibidores de velocidade.

O Rio de Janeiro já teve Garotinho, Benedita, Rosinha, administradores sem noção de seus afazeres. Dessa vez a violência da bandidagem tradicional junta-se a uma geração de políticos interessados em matar a cidade que eles não compreendem e, por isso mesmo, odeiam. Há o que tenta acabar com o carnaval, o outro que persegue culto afro-religioso e o outro ainda que, diante da impressionante multidão de mendigos jogados nas calçadas, orgulha-se de que não passam fome, não são esqueléticos como os de outros países. Euclides da Cunha dizia ser o nordestino antes de tudo um forte. Agora, o forte é o mendigo.

O repórter urbanista, especializado na apuração de assuntos da cidade, morreu atropelado pela pauta do trânsito descontrolado, uma avenida sem lei onde os guardas responsáveis estão entretidos no celular e vale aos motoristas a velocidade que eles estabelecerem como válida, todos autorizados pelo senso comum dos desatinos a não pararem no sinal vermelho porque, no Rio, todos sabem, esse troço de sinal vermelho é mais um truque baixo da bandidagem para assaltar quem obedece – e carioca ixperto não cai nessa.

Há vilões urbanos se revezando por todos os lados, crateras monumentais nas calçadas, lixo caindo das caçambas, uma tensão constante, o horror, o horror. As reportagens de Daflon miravam tais vilanias urbanas. No verão foi a patinete na calçada. Agora chegou a vez dos entregadores de iFood e suas bicicletas kamikazes tornarem o horário de almoço um novo espetáculo de insanidade. Não dá mais para andar distraído, esse requisito fundamental que uma cidade civilizada precisa oferecer a seus moradores. E foi assim, em meio ao estresse das ruas, que a fúria do trânsito atropelou sem prestar socorro o repórter urbanista cujo traço mais evidente de perfil era a leveza e os bons modos.

Rogério Daflon passou a vida cumprindo pautas. Buscava respostas para o drama urbano carioca. Foi mais uma vítima dele.

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