dj dolores

dolores sobre naná…

ronca.mic

DJ Dolores, cantor, compositor e DJ:

“Há uns sete anos, Nana parou o copo de cerveja no ar e disse, com semblante muito sério, que ia morrer em agosto do ano seguinte.

– Que besteira, rapaz, você tem uma filha para criar.

– Você é ateu, não entende. Eu sou espiritualizado, sinto coisas que ninguém sabe.

– Ha ha ha, você vai é enterrar um monte de gente com essa conversinha mole…

De fato, ele não morreu. E continuou a ligar para minha casa em horários inesperados para contar piada e desligar o telefone quando terminava, assim mesmo, sem se despedir. Também tivemos tempo para montar uma banda, Blind Date, gravarmos uma trilha e, há dois anos, fizemos um show – apenas nós dois no palco – inspirados por Reich, Varesse, Satie e Villa Lobos.

Foi Nana que numa manhã de domingo me fez gostar de Villa Lobos. Cantou as letras, me fez prestar atenção às variações rítmicas, abriu uma dessas janelas que a gente pode passar a vida inteira sem perceber que existem.

Agora, ele foi embora. De novo, nem me deu a chance da despedida, deixou apenas uma enorme tristeza.

Sou ateu, não sei rezar, mas alguém disse que a música é uma forma de oração. Que meus sentimentos sejam representados nessa música, uma das primeiras que fizemos juntos.

Adeus, meu amigo.”