brasil

peça original danificada…

(janeiro1979)

# A cidade submersa que o Chico cantou – ela agora é real #

Nada é pra já, mas um restaurante fecha hoje, um botequim amanhã, e vai se formando aos poucos a cidade submersa de que falava a música de Chico Buarque, aquele Rio de Janeiro em que os escafandristas do futuro mergulharão na busca dos vestígios de uma civilização naufragada. Para que tal não se assuceda, urgem cestas básicas para orfanatos, álcool gel para comunidades ou, como faço agora, boas doses do mais fervoroso paganismo carioca.

É preciso erguer os copos da solidariedade e pagar uma rodada de gim tônica na Casa Villarino, no Castelo, o barco à deriva que na semana passada mandou à cidade uma garrafa com mensagem de socorro. A Zona Sul, com seus charmes e mitos, nasceu naquela mesa ao fundo do salão. Foi onde Tom Jobim conheceu Vinicius, depois abriu a tampa do piano para receber os versos do poeta e juntos, sol, sal, sul, som suave, redesenharam a cidade sofisticada que passamos a amar.

O Rio de Janeiro já foi destruído muitas vezes, e o próprio Villarino está sobre os tesouros jesuítas do Castelo, o morro derrubado justo para evitar pandemias. Surgirão muitas encarnações ainda, como houve a das livrarias da Rua do Ouvidor e dos sambas na Festa da Penha – mas é triste quando a cidade que submerge é aquela que a gente conhece e se sente feliz.

Por isso, na esperança de que muitos façam o mesmo, eu peço, e desde já deixo gurja gorda, uma rodada de salada de batata com kassler ao Bar Luiz – e assim faço tilintar a máquina registradora, a mais linda música a se tocar neste momento no restaurante. O alemão da Rua da Carioca sobreviveu aos ataques dos estudantes antinazistas na guerra e agora balança dramático com a versão 2.0 de genocídio pelo vírus. O que era charme, a arquitetura sem janelas para impedir a rua de lhe bisbilhotar o interior, agora é maldição – e no início do mês lá se foi, também sem janelas, o Mosteiro, um cardápio fundamental para explicar a construção do espírito da cidade.

A história do Rio de Janeiro é um sublime palimpsesto onde um incêndio apaga a boate Vogue, mas logo na quadra seguinte alguém acende as luzes do Sacha’s – e, camada sobre camada, tudo se reinventa pela criatividade intrínseca ao DNA malandro-agulha da cidade. Acontecerá outras tantas vezes. Mas o que eu quero hoje é que o Rio Minho, também ameaçado, perdure na Praça XV e sua sopa Leão Veloso (estou pedindo duas) esquente muitos invernos de nossa apavorada existência. Se um dia ele tiver de ir que não seja agora, nesta mesma temporada em que o Navegador, há 45 anos ancorado no porto seguro da Rio Branco, deixou de se lançar ao mar com os doces alhos de seus cabritos.

É uma tragédia ainda não encerrada, a rapidez com que uma cidade inteira de referências históricas está se pondo submersa. Reina o medo de, finda a pandemia, com tantas perdas, o carioca sair às ruas e desconhecê-las. No passado já se chorou a demolição do Palácio Monroe, o fim da geral do Maracanã, o desmonte do Morro de Santo Antônio. Teme-se agora perder a fina baixa gastronomia da empada de camarão do Salete, de igual relevância para nos explicar. Uma cidade se faz do conjunto de seus símbolos. Não é um cardápio, é um discurso de civilização. Não é uma empada, é o Pão de Açúcar sobre a mesa. A propósito, garçom, me traz uma dúzia.

Joaquim Ferreira dos Santos

DAQUI

pelé, o único rei…

sabe o tipo de pessoa que você fica admirando de longe? que você acompanha o picado manso da criança singrando pela calçada? que quando está perto a gentileza toma proporções avassaladoras, hein? malemolência incomum, olhar que perfura cofre de banco, manja? ninguém que saiba portar a camisa do vasco com tamanha autenticidade e beleza, sacumé?

pois bem, em tempos de massacre total, não mais terei essas doses de felicidade que há anos me acompanhavam… soube ainda agora (são 16:30) que – há uma semana – perdemos pelé, o mago dos óculos, o gentleman verdadeiro de um bairro que não mais existe (ainda mais agora).

ficou um mês entubado pelo mocorongo, resistindo, saindo na porrada diária com os genocidas que infectam a tudo e a todos.

buraco, sodade, que falta da porra

) :

mais uma comédia brasileira sendo implodida…

DAQUI

creio que essa foi a primeira vez que li o desmonte do tal dia MUNDIAL do rock publicado num veículo de comunicação… e como demorou, hein?

tremenda comédia vira-lata de péssimo gosto que é/foi enfiada goela abaixo em nome desse tal de rock’n’roll por pessoas que nunca tiveram noção de paul newman… jisus!

pena que a matéria não está assinada… mesmo assim, palmas para o globo por implodir essa vergonha.

ê batumaré (ou segue o osso)…

(rio  /  agosto1992)

quatro músicas de “ê batumaré”, primeiro disco solo dele, lançado em 1992

Mobral
Do que adiantam?
Placas. Bulas, instruções…
Do que adiantam?
Letras impressas das canções…
Do que adiantam?
Gestos educados, convenções…
Do que adiantam?
Emendas, constituições
Se o teto da escola caiu
Se a parede da escola sumiu
Sem dente o professor sorriu
Calado recebeu dez mil
E depois assistiu na Tevê
Em cadeia para todo Brasil
O projeto, a tal salvação
Prestou atenção e no entanto não viu
A merenda, que é só o que atrai
A cadeia para qual o rico vai
Despachantes, guichês, hospitais
E os letreiros de frente pra trás
Aos olhos de quem
Só aprendeu o bê-á-bá
Pra tirar carteira de trabalho
E não entendeu Zé Ramalho cantar
Vida de gado
Povo marcado
Povo feliz
+

A Dureza Concreta

Teu sangue ralo explica

Tua fome de comer

Fome de engolir com os olhos
Tudo que se pode ver
Fome de camisa limpa
De ter fome, fome ter
Já que a garganta seca
E o difícil engolir
Te impõe essa dieta
Quase que como um dever
É outra vez a marreta
Que levanta e vem ao chão
É a dureza concreta
Da vida da construção
É tua tristeza certa
É tua cama de pau
É tua existência tonta
Precisando de oração
Se o que te corre nas veias
Já não te sustenta mais
Te resta o chão, o limite
De onde nunca passarás
Senão pra vala comum
Sem sete palmos contar
Pra tua pouca magreza
Dois ou três hão de bastar

+

A Nova Cruz
 A nova cruz brasileira
A cruz em forma de X
Diferente das cruz das Igrejas
Da cruz que ocupou Paris
Mas tal como as outras cruzes
Aponta, julga e condena
Amarra os pés e as mãos
Dos que já nascem com ela
Cruz escrita ma testa
(Doente, febril, amarela)
Cruz desenhada nos vãos
(Entre os dentes da boca banguela)
Cruz sobre os viadutos
(Início da nova favela)
Cruz em cada cruzamento
(Vendendo limão e miséria)
Cruz imensa em suor
(Que pinga e não fura pedras)
Cruz marcada a fogo
(Nos malhos, caldeiras, panelas)
Nas mãos
Na testa
Nas pedras
A cruz selando o destino
Do morto, que vivo se enterra
O futuro como um precipício
A cruz lá embaixo, à espera
+
O rio Severino
 Um tísico à míngua espera a tarde inteira
Pela assistência que não vem
Mas vem de tudo n’água suja, escura e espessa deste
Rio Severino, morte e vida vêm
Mas quem não tem abc não pode entender HIV
Nem cobrir, evitar ou ferver
O rio é um rosário cujas contas são cidades
À espera de um Deus que dê
Quem possa lhes dizer
Me diz o é que você tem
A quem se pode recorrer
Me diz o que é que você tem
É muita gente ingrata reclamando de barriga d’água cheia
São maus cidadãos
É essa gente analfabeta interessada em denegrir
A boa imagem da nossa nação
És tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem
Acesso fácil a todos os teus bens
Enquanto o resto se agarra no rosário, e sofre e reza
À espera de um Deus que não vem
O que é que você tem
Me diz o que é que você tem
O que é que eu posso te dizer?
Me diz o que é que você tem
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