
Arquivo da categoria: imprensa
o rádio hertziano…

A demissão da equipe da MPB FM pegou de surpresa ouvintes e suscitou onda de lamentos nas redes sociais sobre o fim de mais uma emissora relevante no cenário musical carioca. Desde a zero hora desta quinta-feira, 1º de fevereiro, a frequência 90,3 MHz passou a replicar o sinal da vizinha BandNews Fluminense FM. As queixas sobre a perda de espaço para a cultura nacional se multiplicam, mas, para entendermos o que há por trás de mais este movimento de desinvestimento (para usar um eufemismo tão em voga no mundo da comunicação), é preciso contextualizar a encruzilhada com a qual o rádio se defronta no Rio de Janeiro e em outras capitais.
O rádio hertziano fatura cada vez menos, na esteira da profunda depressão econômica que atravessamos desde 2015. Radiofrequências são um bem escasso: desde os anos 1990, o dial carioca está totalmente loteado entre empresas (sobretudo privadas), muitas delas sem qualquer atividade além do gerenciamento de contratos de gaveta. Os “inquilinos” se sucedem a cada três ou cinco anos, sem lógica aparente, levando à eliminação de marcas estabelecidas.
A sucursal da BandNews no Rio abriu as portas em 2005, ocupando os 94,9 MHz que já tinham sido referência para a música independente, nas ondas da Fluminense FM, a Maldita. O surgimento da Band no mercado carioca levou a CBN a “matar” outra rádio tradicional, a Globo FM, bem colocada no segmento adulto contemporâneo – em poucos meses, a frequência 92,5 MHz passou a replicar o sinal da CBN AM. Em 2009, a Tupi AM fez o mesmo movimento em direção à Frequência Modulada, deslocando a Nativa, emissora de música popular dos Diários Associados, da frequência 96,5 MHz para 103,7, e com isso tirando do ar no Rio a tradicional rede Antena 1. Em resposta, a Globo AM arrendou a frequência da antiga Manchete FM, 89,5 MHz.
Com o AM em declínio (apenas um em cada dez ouvintes do rádio estão hoje nas ondas médias), houve uma corrida por posições em FM, que ficou sobrevalorizado nos últimos anos. Corre no mercado carioca que a Record, quando estava bem das pernas, ofereceu R$ 100 milhões por uma frequência bem no meio do dial carioca, pensando na formação de uma rede All News que acabou não saindo do papel. A proposta teria sido refugada pelo concessionário, que certamente tinha um horizonte de continuar faturando alto nos anos seguintes.
Só que vivemos, nos últimos anos, um ponto de inflexão. Contratos de arrendamento fechados por valores estratosféricos inviabilizaram diversos negócios e estão sendo revistos. O Sistema Globo de Rádio devolveu a posição de 89,5 MHz e tirou do ar a Beat 98, emissora própria, para abrigar a Globo AM na Frequência Modulada. Mesmo sempre disputando a liderança de audiência, a Beat virou uma programação automatizada rodando num notebook da Rua do Russell, assim como a antiga Globo FM. Já as Emissoras e Diários Associados devolveram os 103,7 para a Antena 1 e acabaram com a Nativa.
Era esperado, infelizmente, que a MPB FM, criada em 2002, seguisse o mesmo caminho, a partir do momento em que a empresária Ariane Carvalho vendeu 50% do negócio para o Grupo Bandeirantes, há cinco anos. A direção da Band não se pronunciou sobre o destino da frequência, mas o mercado já projeta a devolução dos 94,9 MHz para o Grupo O Fluminense, de Niterói. Nenhuma rádio, hoje, tem condições de fazer frente a um custo fixo anual de R$ 3 milhões a R$ 5 milhões, só em arrendamento de posição no dial – sem falar nos custos com folha de pagamento, equipamentos etc.
O leitor pode estar se perguntando: mas este não é um mercado clandestino? Vender frequências não deveria ser passível de punição? Em tese, de fato, o Estado poderia reaver as concessões de radiofrequência que se tornaram moeda de troca e descumprem a legislação em termos de representação da diversidade social e cultural do país. Na prática, no entanto, não há fiscalização. Estima-se que mais da metade das emissoras comerciais em operação no país esteja com outorga vencida e nem sequer pediu renovação. Nesse contexto, empresários arrendam suas posições no dial para quem oferecer mais. O que embaralhou as cartas é que há cada vez menos interessados em pagar pequenas fortunas por um negócio de horizonte incerto – como fizeram os donos da Rádio Mania, que desalojou a ressuscitada Cidade, única rádio rock no dial carioca, em julho de 2016.
Quem perde com a situação? Todos nós, ouvintes, naturalmente, que somos privados de emissoras que cumpriam um papel cultural destacado. No caso da MPB FM, uma emissora adulta contemporânea de conteúdo 100% nacional, muitos comunicadores deixarão saudades – a voz-padrão do inigualável Fernando Mansur (40 anos de ficha corrida no rádio carioca), Valéria Marques, Daniella Lapidus –, bem como programas do naipe do Palco MPB e do Samba Social Clube. Os ouvintes, claro, se sentem desrespeitados, até pela forma como as mudanças são conduzidas. À meia-noite, uma voz gerada em São Paulo irrompeu no meio dos versos de “Quem te viu, quem te vê”, de Chico Buarque, em versão de Zeca Pagodinho – aquela canção dos lindos versos “Hoje o samba saiu procurando você / Quem te viu, quem te vê / Quem não a conhece não pode mais ver pra crer / Quem jamais a esquece não pode reconhecer”.
Rádio só funciona se criar vínculo, formar hábito, se tornar imprescindível. Com um dial em permanente mutação, ao sabor de negócios nada republicanos, vão-se os hábitos e a fidelidade de uma audiência hoje cada vez mais disputada por outros atores do entorno digital, como os serviços de streaming. Pela frieza dos números, entende-se. Pelo afeto envolvido, lamenta-se. E muito.
Marcelo Kischinhevsky. Jornalista, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e professor do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCS/UERJ), onde coordena o AudioLab.
sambalaNço…

Música e anonimato
O livro sobre sambalanço, de Tárik de Souza, presta tributo importante a músicos anônimos
Qualquer um que goste de música brasileira e tenha crescido durante os anos 1970 e 1980 teve um farto cardápio de leituras sobre o tema. Seja na imprensa, seja em livros ou revistas especializadas, a ampla produção do período veio acompanhada de uma intensa escrita crítica. Jornalistas, pesquisadores, historiadores, sociólogos e outros profissionais pontuavam semanalmente lançamentos ou iluminavam períodos anteriores dessa história. Tudo isso em uma variedade de publicações para diferentes gostos ou coleções que circulavam em bancas de jornais.
Entre esses escritores, alguns nomes ganham destaque. Um deles é Tárik de Souza. Formado nas redações em época de pesquisadores obsessivos como José Ramos Tinhorão, o jovem crítico percorreu inúmeros veículos, sempre escrevendo sobre a música não só da memória — tendência corrente no final dos anos 1960 —, mas principalmente do seu tempo. Através da sua participação na coleção “História da Música Popular Brasileira”, série de fascículos editados pela Abril em diferentes momentos da década de 1970, Tárik marca seu lugar entre leitores de diferentes idades. A coleção, fundamental para a iniciação de gerações (a minha, por exemplo), era importante pela fartura de informações, imagens e textos esclarecedores. O time que trabalhou ao lado de Tárik na escrita dos fascículos (cujos nomes foram de Dalva de Oliveira e Nelson Cavaquinho até Amado Batista e Luiz Melodia) dá uma ideia do seu valor: o já citado Tinhorão, José Lino Grünewald, Rogério Duprat, Ezequiel Neves, Aracy de Almeida, Augusto de Campos, Zuza Homem de Mello e muitos outros. A lista é imensa.
O fascinante da escrita dedicada à música popular brasileira — ou à música feita no Brasil, para ampliar esse escopo — é a quantidade de temas e personagens que ainda não foram, nem de longe, aprofundados. O segmento editorial que se dedica a tais livros é substancial entre nós, mas não chega perto, por exemplo, do seu correspondente norte-americano. Apesar disso, livros sobre música brasileira costumam virar entre nós best-sellers ao longo dos tempos. O fato é que a maioria dos títulos lançados com frequência sobre o tema geralmente são dedicados ao gênero da biografia (muitos deles excelentes) ou de memórias (sejam autobiográficas, sejam registros esparsos de momentos de alguma carreira ou movimento importante).
Essa conexão entre a música e a vida é um sintoma da nossa relação com a canção popular e seus cantores históricos. Em maior grau, nos conectamos com a voz, aqueles que cantam e encarnam em um corpo a história das letras, das melodias e das harmonias que formam o bloco sonoro completo. Os ídolos são vozes que galvanizam nações e emoções. O fato é que essa perspectiva pessoal, biográfica e performática da canção — quem canta é a obra — contribui para nossa história da música colada na história de vidas e, simultaneamente, provoca apagamentos importantes ao longo de mais de um século de produção sonora no país. Por exemplo, os músicos de estúdio. Mal sabemos quem são. São centenas de anônimos cujas vidas dedicadas aos seus instrumentos os colocaram a serviço dessas vozes e dessas canções. Pessoas cujos nomes não conhecemos, mas cujos sons marcam nossos corpos e mentes.
É nessa brecha do apagamento que volto a Tárik de Souza. Seu novo livro “Sambalanço, a bossa que dança — Um mosaico” (Kuarup), ao mesmo tempo em que apresenta essas histórias ainda não contadas para além das biografias de grandes nomes ou de grandes movimentos musicais, também presta um tributo importante aos anônimos de um período fundamental da nossa invenção sonora. Estruturado como uma espécie de minienciclopédia, o trabalho é dividido por um ensaio sobre o tema, entrevistas, verbetes e discografia. Ali, Tárik colabora definitivamente para futuros interessados nesse momento histórico.
A principal contribuição do livro, portanto, vem através do registro de uma série de músicos e histórias cujos nomes não rompem jamais o circuito interno de quem viveu o dia a dia de estúdios e shows. Agora, podemos saber das invenções rítmicas do baterista Jadir de Castro, da trajetória de um percussionista como Rubens Bassini, da parceria explosiva e inventiva selada entre Elza Soares e o maestro Nelsinho (mais um dos “anônimos”, aliás, falta entre nós essa história dos maestros e orquestras de rádios e gravadoras) em discos como “Se acaso você chegasse” (Odeon 1960), da ascensão fulminante do Solovox, piano elétrico de som marcante, dentre músicos que tocavam nas boates de Copacabana, ou da existência de uma série de gravadoras obscuras como Sideral, Musidisc, Pawal ou Equipe.
Em “Sambalanço”, Tárik nos faz entender um período paralelo à bossa nova, com artistas de forte marca popular. Talvez seja por isso que seus músicos e discos tenham virado uma espécie de subterrâneo da história da MPB durante os anos 1960. E eis por que louvo aqui esse pesquisador incansável e sua proeza de registrá-la.
Fred Coelho / DAQUI
“this is the end” (j.morrison)…

TERÇA, 24/01/2017, 06:00
Marchinhas politicamente incorretas estão na mira dos blocos do Rio
Entre as canções censuradas estão hinos como “O teu cabelo não nega”, “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão”. A polêmica divide opiniões: há quem defenda o caráter democrático da festa, já os críticos, dizem que as músicas ofensivas não devem fazer parte de uma manifestação popular.
Por Frederico Goulart
Foi das mãos do compositor Lamartine Babo que, em 1932, nasceu um dos hinos do carnaval brasileiro. Hoje, 84 depois, “O teu cabelo não nega”, encontra-se no centro de uma polêmica que agita o carnaval de Rua do Rio: afinal, qual deve ser o espaço das letras politicamente incorretas na festa? Há quem defenda uma lista de canções proibidas, na qual também estariam marchinhas como “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão”.
Algumas dessas músicas já estão fora do repertório do Bloco Mulheres Rodadas – que surgiu do movimento feminista. Uma das componentes do grupo, Renata Rodrigues diz que o corte de determinadas letras acontece após discussões internas. Ela defende que letras ofensivas não devem ter espaço em uma manifestação popular.
O veto às marchinhas de letras polêmicas está longe de ser um consenso, até mesmo entre os componentes de cada bloco. No Céu na Terra, tradicional grupo carnavalesco do Rio, a decisão de retirar “O teu cabelo não nega” do repertório não agradou a todos, como explica o diretor Péricles Monteiro.
Na visão de Rodrigo Rezende, presidente da Liga Carnavalesca Amigos do Zé Pereira – organização que reúne alguns dos principais blocos da cidade -, a discussão é importante. Mas não se pode perder de vista o caráter democrático da festa.
Ricardo Cravo Albin, pesquisador e crítico musical, não mede as palavras pra criticar a censura. Pra ele, cada momento tem seu tempo, e é uma tolice a desconstrução do que foi consolidado no passado e na alma popular. Ele defende que temas como a mulher, a cor da pele e o homossexualidade sempre foram cantados durante o carnaval. Apagar isso seria negar a própria história da festa.
crocodilagens & afins…

Assunto: Pedido e dica“Caro Mau Val,em primeiro lugar, um pedido para o #214: “Born under a bad sign”, do Cream (faz tempo que não pinta no juMboteko…).Em segundo lugar, já que o “Mesa quadrada” sobre os maus tratos ao Maracanã rendeu, segue uma dica deste texto absolutamente cabriocárico, estrogonófico, “rélpis”, sobre o que se fez com o Mário Filho antes de 2014: http://agenciasportlight.com.br/index.php/2017/01/05/um-crime-deve-ser-desfeito-um-plebiscito-ja-para-derrubar-o-new-maracana/.O autor? Lúcio de Castro, o jornalista cujo depoimento no Geraldinos você elogiou no voo nº 213. E que tem uma agência de jornalismo dedicada a investigar as crocodilagens com o esporte, a Sportlight.Abraços,”Felipe
gatos & ratos…

– O Maracanã está entregue aos gatos, enquanto o governo estadual e a Maracanã S.A. (Odebrecht e AEG) dizem não ter responsabilidade pela manutenção do estádio — cuja reforma custou R$ 1,3 bilhão aos cofres públicos. A sujeira, a degradação, a falta de luz, os restos de material dos Jogos Olímpicos e os muitos gatos que moram no complexo esportivo ajudam a deteriorar a arena, reformada em 2013…
hoje, DAQUI
the wire top 50 / 2016…

- David Bowie – Blackstar
- Shirley Collins – Lodestar
- Moor Mother – Fetish Bones
- Autechre – elseq 1-5
- Nick Cave & the Bad Seeds – Skeleton Tree
- Jenny Hval – Blood Bitch
- Noura Mint Seymali – Arbina
- Yves Tumor – Serpent Music
- Gaika – SECURITY
- Mark Ernestus’ Ndagga Rhythm Force – Yermande
- Gate – Saturday Night Fever
- Solange – A Seat at the Table
- Kanye West – The Life of Pablo
- Oren Ambarchi – Hubris
- Babyfather – “BBF” Hosted By DJ Escrow
- 75 Dollar Bill – Wood / Metal / Plastic / Pattern / Rhythm / Rock
- Anna Meredith – Varmints
- Kaitlyn Aurelia Smith – EARS
- A Tribe Called Quest – We got it from Here… Thank You 4 Your service
- Carla dal Forno – You Know What It’s Like
- David Toop – Entities Inertias Faint Beings
- Leonard Cohen – You Want It Darker
- Kendrick Lamar – Untitled Unmastered
- Idris Ackamoor & The Pyramids – We Be All Africans
- Laura Cannell – Simultaneous Flight Movement
- Ectoplasm Girls – New Feeling Come
- Steve Gunn – Eyes on the Lines
- Ian William Craig – Centres
- Matmos – Ultimate Care II
- Laraaji & Sun Araw – Professional Sunflow
- Scott Walker – The Childhood of a Leader (OST)
- Bitchin Bajas & Bonnie “Prince” Billy – Epic Jammers and Fortunate Little Ditties
- Elysia Crampton – Elysia Crampton Presents: Demon City
- Katie Gately – Color
- Shackleton with Ernesto Tomasini – Devotional Songs
- Anxiety – Anxiety
- Skepta – Konnichiwa
- Puce Mary – The Spiral
- The Dwarfs of East Agouza – Bes
- Catherine Christer Hennix – Live At Issue Project Room
- Horse Lords – Interventions
- Roy Montgomery – R M H Q: Headquarters
- Frank Ocean – Blonde
- Thalia Zedek – Eve
- Charlemagne Palestine – Cathédrale De Strasbourg
- Kepler Quartet – Ben Johnston: String Quartets Nos. 6, 7, & 8
- Circuit Des Yeux – Jackie Lynn
- Zomby – Ultra
- Klara Lewis – Too
- Peder Mannerfelt – Controlling Body
“o planeta lamma é sete palmos debaixo do chão”…
aconteceu em 10maio e publicado em 12maio1993 pelo glorioso pedro só…



espírito indomável (ou stormbringer)…



simples assim… Deusa!
skylab disse pra gente, em 2010…

A Lama na Música Brasileira
06/03/2010
Na música popular brasileira, dois artistas usaram a palavra “lama” com tanta insistência, que o referido termo acabou assumindo o papel de palavra chave em ambos os trabalhos. Quero me referir a Damião Experiença e Chico Science.
Ainda assim, o sentido do termo é completamente diferente em um e outro.
A lama em Chico tem um sentido preciso, localizável: os manguezais dos rios de Recife. João Cabral já se referia a essa lama em Morte e Vida Severina. Essa lama é a base do Mangue Beat: é denuncia, mas é também inserção:
“ A ciência conseguiu juntar
o mangue com o mundo
e de lá saiu
um malungo boy malungo
Antenado, camarada, malungo.
Sangue bom. Francisco de Assis. Malungo sempre bom.”
in, Malungo
Da Lama ao Caos, fala-se em Sandino e Lampião. E a revolução é o caminho a se trilhar, sem abrir mão da modernidade. Sair da miséria tem como corolário o computador e a modernidade. A lama é a miséria e a insurreição.
A música de Chico e seus respectivos arranjos apontam na direção dessa inserção ao mundo moderno. Cheia de overdrives e dub, lado a lado com os tambores do maracatu, o hibridismo já era sugerido no tropicalismo: Luiz Gonzaga e Beatles.
Não é de se admirar, portanto, que houvesse pronta aceitação, apesar da morte prematura de Chico. A nossa “Inteligenzia” adotou o Mangue Beat de braços abertos e Chico Science, ainda que com apenas dois discos, se tornou referência de nossa cultura.
O mesmo não se pode falar em relação a Damião Experiença. Caso limite, passou ao largo da nossa “Inteligenzia”. Nenhum disco seu, dos tantos que produziu (alguns chutam o número de 36), consta de alguma lista dos dez mais. É uma sombra na música popular brasileira, quando não é motivo de chacota. O programa Ronca Ronca, que me fez conhecê-lo, certa ocasião entrevistava o músico Frejat e este fez menção a uma gravação de Damião no estúdio de Torquato Mariano:
– o técnico de som estava preparando os equipamentos e quando informou a Damião que podia começar, este lhe disse que já havia terminado (risos).
Em Damião, seja por uma insuficiência técnica ou mental, o reguea não é reguea, a música é quase sempre a mesma, o seu violão de poucas cordas só faz barulho e a gaita não toca lá coisa com coisa. Daí, a primeira diferença em relação a Chico, que, quando ouvimos, distinguimos o maracatu, a embolada, a ciranda e outros ritmos pernambucanos. Em Chico existe a idéia de uma restauração agregada a novas tecnologias. Já em Damião não existe restauração nenhuma, é tudo impreciso, inacabado, precário, e daí, por mais paradoxal que seja, a sua força.
O mundo de Damião é tão subjetivo, que está longe de qualquer inserção ao mundo moderno. Em seu livro, que se repete em suas músicas, suas afirmações contra o aborto e contra a nova igreja (teologia da libertação) estão na contramão da história. Poderia-se mesmo, diante desse anacronismo, construir-se um mundo reacionário, anti-moderno, não fosse a sua linguagem de bas-fond, cheia de palavrões e sexo. Impossível um discurso lógico em sua fala, ao contrário do Mangue Beat. É aí que talvez pudéssemos aproximá-lo a Bispo do Rosário com sua técnica de assemblage e seu amor à taxonomia. Psicótico e também marinheiro, como havia sido Damião, Bispo retirava do lixo os seus materiais, o que dava a seu trabalho uma conformação ao tempo. Ambos foram contemporâneos. Se o discurso de Bispo esvaziava-se de uma lógica narrativa, uma vez que a idéia de coleção retira o privilégio de determinados materiais em relação a outros, o discurso de Damião também o fazia. “Todos são iguais, homem ou mulher, preto ou branco, todos são iguais”. E aí, creio, está a base de seu trabalho e o sentido que toma a palavra lama: “ Porque todos nós iremos para a lama. Porque depois que nós morremos, a gente vai para o chão, se a gente é queimado, depois as cinzas, a gente põe no chão e elas viram lama. Então eu digo: Planeta Lamma. É o planeta mais certo que existe no universo. Porque todos ali são iguais, um não pode falar do outro porque todos vão para ali, para serem eles mesmos, podem ser brancos, amarelos, pode ser encardido. Pode estar lindo, pode estar bem pintado, pode ter a maior mansão, tudo de confortável, de repente bateu o coração, e vamos todos nós para o Planeta Lamma” .
Não é à toa o nome “Damião Experiença”. A palavra “experiência” tem em Damião um status tal e qual a palavra “lama”. E se pensarmos bem, ambas se equivalem. Aliás, sua biografia está quase toda nas canções. Não nego que ao me remeter a “Jimmy Hendrix and Experience”, e mesmo “Fátima Bernardes Experiência”, fui levado inicialmente a pensar a “experiência” no sentido científico do termo: um laboratório de experiência, experimentações científicas como o skylab americano. A questão é que, dessa forma, pode-se mergulhar numa determinada prática, em detrimento a outras do senso comum,
e então instaurar-se um processo de hierarquização. Os movimentos vanguardistas do século passado caíram nessa armadilha e acabaram apenas invertendo o platonismo, o que os impediram de uma alternativa real à Metafísica.
Mergulhar no seio da experiência, desarticulando qualquer possibilidade de discurso, é aonde nos leva as canções de Damião, alguém de olhos e ouvidos bem abertos ao seu tempo. E lá vai a sucessão de suas imagens:
“o erro foi meu, casar com mulher furada, que outro comeu”; “a mulher que faz aborto não tem pena do seu próprio corpo… para evitar, deve tomar no ânu o ano inteiro”; “vamos deixar de lado a TV – máquina doida”; “a música é pátria do universo, não tem fronteira”; “planeta lamma – 27 palmo debaixo da terra, pode ser barões, ladrões”; “a droga é a história do universo, a língua das pessoas é mais suja do que as drogas”; “o mundo é minha pátria – eu abro a janela, uma aquarela”; “não gosto de ditadura, tem fingimento com abertura”; “sou a favor da natalidade, de tudo que é vida”; “a camisinha é pra pegar dinheiro”; “gurilões, bichos da cara preta”; “minha mina me largou por outra mulher, eu só gosto de mulher sapatão”; “Adeus, Adolfo Hitler, Eva Brown”; “Volta Getúlio Vargas para se encontrar com Fidel Castro”; “Vamos fazer açúcar para exportar para a Rússia”; “os homens estão virando mulher”; “os bichos da cara preta matando de escopeta, não têm medo de careta”; “Rastafari é ser livre”; “vim lá do sertão em busca de solução”; no xadrez – lá mesmo me tornei um vagabundo mesmo sem querer”; “estou desempregado, sem comer e sem dormir”; “você é negra, seu irmão também era negro, quem matou ele? Você sabe muito bem”; “a lida do morro, a vida do morro, os homi desceram, deixando atrás o ódio e a dor”; “o povo da América Central é tudo raçudo”; “morro do galo, era tudo natural, agora não é mais, é tudo artificial, pão com doce pra dar gosto na erva natural”; “só os mendigos salvam o planeta”; “mamãe não quer que eu seja homem não, que homem tem que trabalhar, metido a machão, usa chifre na cabeça pra dizer que é machão”; “o mundo foi bem feito, todo mundo tem defeito, ninguém é direito, não adianta prender, bater, matar, vocês só sabem criticar as mulheres da rua, os travestis, as mariposas”; “eu quero uma mulher livre, que seja humilde pra casar com Damião Experiença, uma mulher bonita pra me sustentar, que saiba passar, que saiba gozar, eu não ando com mulher de graça”; “eu vou para a praia de Havana plantar banana, Havana – cidade maravilhosa de América Central”; “eu não me sinto envergonhado de dizer que nunca trabalhei”; “eu sou peixe, sai do meu pé… mas eu estou aqui na terra, eu não gosto de mar”; “eu não nasci no Brasil, eu nasci na União Soviética, minha mãe é cubana, meu pai é revolucionário, militar da União Soviética, minha mãe é abolicionária”; “eu vejo com olho aberto a chuva levando barraco da favela”; “amor de mulher é dinheiro”; “o que está acontecendo eu já previa, rei de espada, dama de ouro… faria um jogo melhor se eu fosse um rei de ouro”; “eu gosto de apanhar de mulher, eu sou masoquista, ela pode bater, dá na minha cara, dá na minha boca, eu quero gozar a vida. Desde que ela me pague, ela pode fazer o que quiser comigo, eu quero uma mulher, me bate, me dê um bolachão”; “tenho raiva de quem trabalha, sempre fui sustentado por mulher”; “é livre ser Rastafari, eu sou é Rastafari lá do sertão”; “o mundo é dos inteligentes, dos espertos”; “o mundo é dos inteligentes, está dividido em duas potências”; “eu sou fã dos Estados Unidos e da Rússia”; “o papa visita a favela e não faz nada por ela, Papa papão, ta papando o meu próprio pão”; por que a razão de nós americanos da América do Sul não viajamos pra Cuba, para tirar as dúvidas dos jornais americanos que tanto criticam Cuba, falando de Fidel Castro; “homens da lei ficam fazendo certas maldades com essas pobres mulheres (prostitutas), dentro de suas casas vaidade, tanta coisa incubada, eles ficam com tanta raiva, pegam os travestis, mulheres das enxurradas, dando tanta porrada”; “marinheiro João Cândido foi um revolucionário da marinha brasileira… pqgou um navio, saiu baia a fora e gritou – ou liberta a chibata ou aumenta o fogo. Os Homi gritaram bem alto – a chibata ta libertada”; “qual o homem ou mulher que não faz o 1999? Eu não faço porque não gosto”; “meu pai e minha mãe batendo com cipó de caboclo, fui obrigado a fugir, assim mesmo agradeço o que ele fez comigo, quebrou minha boca, minha cabeça”; “Viajando pra Cuba e pra Cortina de Ferro, perturbado da cabeça, mamando as meninas mais novas. Não valho nada mas as mulheres ficam tudo em cima de mim, gostam da minha língua”; “os bichos da cara preta estão acabando o Brasil”; não tem nenhuma gravadora, eu financio o meu próprio acústico… é tudo de graça, não precisa comprar”; “eu quero casar com essa vagabunda, essa cadela arrombada. Estou brocha, já fui o maior cafetão do mangue”; “ eu nasci na Colômbia, Bogotá, vou fumar a pretinha de lá, vou navegar a branquinha de cá”; “ sábados, domingos e feriados, dias de cornudo ficar em casa”; “prostitutas enlatadas, casadas, tanto faz da zona, tanto faz da família”; “diabo tem chifre, demônio bota chifre no homem”; “eu sou a favor da vida, sou contra o aborto, toma no cuzão pra não fazer aborto”; “lésbicas, gays, mulheres que eu amo, elas trazem mulheres pra vocês e pra elas”; “mulher casada quer ser vaca de boi”; “eu casei e virei gay, todo gay é casado”; “neném, vai dormir que papai vai ser mamãe e mamãe vai ser papai”; “botei sua mãe na zona pra me alimentar”; “a mulher é a galinha, o homem é viado, ela fala pra ele – dá em cima de mim, viado!”; “eu só gosto de mulher que só gosta de mulher e toda vez que chegar em casa só encontro mulher”; “só gozar com aquela merda lá que tem em casa?”; “gayzão quer ficar casado pra disfarçar que é gay”; “eu sou casado, eu sou cornão, cornão casado, mas já estou velho, brocha, vou dar no pé”.
Esse é o vocabulário de Damião Experiença. E assim posto, parece mais uma bricolagem, juntando coisas incompossíveis, mas retiradas da experiência. Tara, vagabundagem, comunismo. Materiais retirados do lixo histórico e, ainda que antagônicos, postos lado a lado, como uma coleção de objetos. Qual dentre eles tem a primazia? Aí é que está. Pra quem viveu o ápice da guerra fria, deve mesmo ficar atônito ao ouvir Damião declarar-se fã da Rússia e dos Estados Unidos. “ E eu digo que a terra é um ser vivente, porque ela nos constrói e depôs nos destrói. É por isso que esse livro se chama “Planeta Lamma”, o planeta da verdade, da realidade, é a coisa mais certa que existe, não adianta, o ser humano como homem e mulher são todos iguais”.
A lama ou terra é a base, o fundamento mesmo de um discurso pragmático, anti-lamentação, ao contrário de Chico Science que vê a lama como negação humana e motivo para insurreições. A lama em Damião iguala, em Chico Science é luta de classes e estopim. A lama em Damião induz a transformação pelo trabalho, em Chico Science induz a revolução e a luta armada. A lama em Damião é um apelo a união dos diferentes, em Chico um convite a porrada. E se o instrumento dessa luta em Chico integra a tecnologia, Damião, se não a nega, ao menos não a endeusa.
Daí porque em Chico existe sempre dois mundos: “Pernambuco em baixo do pé, e minha mente na imensidão”; a lama e o caos; o passado e o moderno.
Com as roupas sujas de lama
porque o barro arrudeia o mundo…
eu sou como aquele boneco..
controla seu próprio satélite.
Andando por cima da terra,
conquistando o seu próprio espaço.
in “Um Satélite na Cabeça” de Chico Science
Em Damião, ao contrário, o mundo é um só: “e é aqui que termina as minhas histórias e meus versos, as minhas músicas. É o mundo, é o Planeta Lamma”.
OBS:
1- as seqüências de fragmentos foram retirados das canções de Damião Experiença e as citações, de seu livro (ambos encontrados no Portal do Daminhão);
2- As citações de Chico Science foram retiradas de suas canções.
– publicado AQUI, em março2010










