rogério skylab

skylabinho & mark e. smith (IMPERDÍVEL)…

rogerio skylab, nosso mestre, circula pelas redes com uma inoxidável e imperdível lembrança  de mark e. smith. segura as letrinhas da leNda…

– Em plena confusão do julgamento do Lula, passou meio em branco o falecimento do líder do The Fall, Mark E Smith. Aqui vai um texto, que traduzi alguns anos atrás, escrito pelo jornalista Ben Granger, do Spike Magazine:

 
Ben Granger analisa duas tentativas para explicar o mundo maravilhoso e assustador do The Fall
 –
 (SPIKE MAGAZINE – 2003)
The Fall: Mick Middles e Mark E Smith – London Omnibus Press / 2003
The Story of Mark E. Smith and The Fall: Simon Ford – London: Quartet Books / 2003
Esses dois livros são uma oportuna lembrança de uma banda cuja chocante individualidade tem sido obscurecida por força de sua longevidade. Uma lembrança dessa banda não é o termo “instituição”, mas a força de distensão dos limites que a música pop pode atingir. The Fall é uma banda que oscila entre o ruído branco
e o pop insanamente acolhedor, assentado por desafinações, vocais sedutores e ainda vanguardistas para o mundo, elementos de realismo atravessados pelo mais incoerente surrealismo, e imagens de ficção científica. Eles cantam sobre o desemprego, remédios, viagem no tempo, cinzas (do mal, dos laços adulterados e das ruas), drogas, papas assassinados, apartamentos afastados,úmidos e encardidos, possessão demoníaca, duendes sob o assoalho e futebol. Eles passaram por mais de setenta músicos durante o percurso, ridicularizando e sobrevivendo ao punk, ao indie dos anos 80,
 ao Madchester e ao Britpop. Eles previram o seqüestro de Terry Waite
e o atentado do IRA em Manchester no álbum liberado duas semanas antes dos eventos. Mark Eduard Smith é bem original. O livro de Middles, aparentemente bem considerado, é definitivamente seu livro, ainda que escrito com a cooperação de Smith. É digno de nota o fato de que, entre os jornalistas, Middles ser um verdadeiro amigo de Smith, que, em perpétua competição com os entrevistadores, vem tentando colocar frescurisses em sua cara de homem carregado.
Esse é o trabalho mais personalizado e mais subjetivo, carregado de memórias evocativas, por parte de Middles, da cena punk de Manchester e observações perspicazes do contraste entre a cidade atual e a passada, em vez de descrever minúcias dos antigos integrantes da banda (embora não seja listado todos os sessenta membros). As próprias contribuições de Smith (assim como as de sua mãe, carinhosamente) significa que, inquestionavelmente, a voz de Smith está no centro da história.
O livro de Simon Ford é diferente, da mesma forma que um desenho técnico difere de uma pintura impressionista. É uma narrativa muito mais linear, preenchido com muito mais fatos em geral. Sem Smith para entrevistar, é dando voz às velhas avaliações e frequentemente descontentes de antigos integrantes do The Fall. Mark Smith aparece aqui como uma sinistra e enigmática presença de fundo o autor tem um grande respeito pelo seu talento, mas é claramente desdenhoso de seus excessos.  
A mesma história, porém, é contada em ambos. Smith, filho de um torneiro mecânico de Prestwich, em Manchester (não de Salford como Smith reivindica para si mesmo), mostrou sinais precoces que marcariam sua liderança no The Fall: feroz individualismo; mente cruel e obstinada; briguento; uma poderosa curiosidade intelectual; fascínio por filosofia e literatura; forte interesse no psíquico e no oculto; e observação irônica misturada de orgulho e desprezo pelas pessoas ao redor.
Um aluno brilhante na escola primária (abandonou a faculdade por falta de interesse e grana), ele viu a emergência do punk se articular com desiludidos como ele, inspirando jovens da classe trabalhadora a formar o The Fall. Seu hábito de despedir membros da banda que não se adequassem, começou antes mesmo do seu primeiro disco de 1979, Live At The Witch Trials.
Ganhando uma legião de fãs de moderado tamanho, mas fervorosa ao longo dos últimos vinte anos, The Fall transcendeu a fusão Velvets-Can-Rockabilly-Punk do seu início para um som levemente mais comunicativo, com a incongruente adição do baixo glamuroso e californiano rickenbacker de sua esposa Brix nos anos 80. Nos anos 90 e além, eles passaram a aceitar os elementos do techno.
Há alguns depoimentos bem humorados em ambos os livros. Eles giram em torno principalmente da personalidade mordaz e pesada de Mark Smith, começando com as fezes de gato espalhadas por todo o apartamento, pensando que fosse razoável para a sua bem nascida esposa, recém-casada, Brix. Mark enfrenta as incontáveis multidões indiferentes e hostis, a má acústica dos teatros e a baixa audiência em
sua fase bizarra de músicas como “Hey Luciani” e “I am Kurious Oranj”; briga com Marc Riley num nightclub em New Zeland; intimida Morrisey nos escritórios da Rough Trade; produz longos silêncios às perguntas de Michael Bracewell numa entrevista pública; e manda a NME e Jô Wiley se fuderem quando eles lhe dão o prêmio Godlike Genius. O aumento das grosserias, cometidas à sua banda, que acabou levando-o preso em Nova York por agressão no palco, pode ter-lhe feito a perda da simpatia de muitas pessoas. Mas apesar do seu comportamento às vezes chocante (mais parecido com o mijo-arte da WMC Winter Music Conference do que excesso de estrelismo do rock), avaliações de ex-integrantes da banda são unânimes na admiração pela poesia de Mark, na sua habilidade em encher de macabro o mundano. Com Mark, você tem o melhor dos mundos. É divertido ouvir as palhaçadas de um cara urbano suportando a dor com trejeitos selvagens e bagunceiros, mas sentindo também a influência de Blake, Dostoievsky, Lovercraft , Camus e Liam Gallagher. Tanto na gravação quanto no palco, mesmo quando ele está mais perverso, há uma estranha sabedoria nas declarações de Mark que te deixa tonto.

Onde ambos os livros, em última análise, falham, é em capturar a essência de Mark ou o real encanto do The Fall. As caracterizações de Ford à respeito de Mark em relação a sua desilusão com o socialismo e suas visões de direita sobre as Malvinas, CND, Europa e o terceiro mundo, como sendo de classe trabalhadora conservadora, é uma grosseira simplificação. Esse tipo de avaliação é de um estranho conservadorismo que detesta tudo da classe média e suporta de todo coração os desordeiros de Moss Side.

Mesmo as freqüentes entrevistas de Middles não dão uma imagem muito clara do personagem e, portanto, ninguém poderia concordar com seu fascínio enigmático. Em relação ao conjunto dos discos, Ford especificamente cita Hex Eduction Hour como superior à Grotesque”,  Infotainment Scanacima de Middle-Class Revolte Unutterableà frente de The Marshall Suíte – com raiva eu digo que não, não, não.
Ler ambos os livros é agradável e acrescenta conhecimento sobre a banda, mas, apenas dando ouvido a eles, proporcionam uma menor compreensão. Conhecimento e compreensão são naturalmente coisas muito diferentes.
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NOTAS:
Ruído branco – combinação simultânea de sons de todas as freqüências (1000 pessoas falando ao mesmo tempo)
Terry Waite  – arcebispo de Canterbury, anglicano, promovedor da ações humanitárias
Marc Riley integrou o The Fall entre 1978 e 1982, tocando guitarra e baixo. No primeiro disco da banda LIVE AT WITCH TRIALS
Michael Bracewell – romancista britânico 
Moss Side cidade do interior da área de Manchester, lar de muitos imigrantes e minorias étnicas


(Postado em 17dezembro2010)

 

skylab disse pra gente, em 2010…

skylab-tico

A Lama na Música Brasileira

06/03/2010

Na música popular brasileira, dois artistas usaram a palavra “lama” com tanta insistência, que o referido termo acabou assumindo o papel de palavra chave em ambos os trabalhos. Quero me referir a Damião Experiença e Chico Science.

Ainda assim, o sentido do termo é completamente diferente em um e outro.

A lama em Chico tem um sentido preciso, localizável: os manguezais dos rios de Recife. João Cabral já se referia a essa lama em Morte e Vida Severina. Essa lama é a base do Mangue Beat: é denuncia, mas é também inserção:

“ A ciência conseguiu juntar
o mangue com o mundo
e de lá saiu
um malungo boy malungo
Antenado, camarada, malungo.
Sangue bom. Francisco de Assis. Malungo sempre bom.”

in, Malungo

Da Lama ao Caos, fala-se em Sandino e Lampião. E a revolução é o caminho a se trilhar, sem abrir mão da modernidade. Sair da miséria tem como corolário o computador e a modernidade. A lama é a miséria e a insurreição.

A música de Chico e seus respectivos arranjos apontam na direção dessa inserção ao mundo moderno. Cheia de overdrives e dub, lado a lado com os tambores do maracatu, o hibridismo já era sugerido no tropicalismo: Luiz Gonzaga e Beatles.

Não é de se admirar, portanto, que houvesse pronta aceitação, apesar da morte prematura de Chico. A nossa “Inteligenzia” adotou o Mangue Beat de braços abertos e Chico Science, ainda que com apenas dois discos, se tornou referência de nossa cultura.

O mesmo não se pode falar em relação a Damião Experiença. Caso limite, passou ao largo da nossa “Inteligenzia”. Nenhum disco seu, dos tantos que produziu (alguns chutam o número de 36), consta de alguma lista dos dez mais. É uma sombra na música popular brasileira, quando não é motivo de chacota. O programa Ronca Ronca, que me fez conhecê-lo, certa ocasião entrevistava o músico Frejat e este fez menção a uma gravação de Damião no estúdio de Torquato Mariano:

– o técnico de som estava preparando os equipamentos e quando informou a Damião que podia começar, este lhe disse que já havia terminado (risos).

Em Damião, seja por uma insuficiência técnica ou mental, o reguea não é reguea, a música é quase sempre a mesma, o seu violão de poucas cordas só faz barulho e a gaita não toca lá coisa com coisa. Daí, a primeira diferença em relação a Chico, que, quando ouvimos, distinguimos o maracatu, a embolada, a ciranda e outros ritmos pernambucanos. Em Chico existe a idéia de uma restauração agregada a novas tecnologias. Já em Damião não existe restauração nenhuma, é tudo impreciso, inacabado, precário, e daí, por mais paradoxal que seja, a sua força.

O mundo de Damião é tão subjetivo, que está longe de qualquer inserção ao mundo moderno. Em seu livro, que se repete em suas músicas, suas afirmações contra o aborto e contra a nova igreja (teologia da libertação) estão na contramão da história. Poderia-se mesmo, diante desse anacronismo, construir-se um mundo reacionário, anti-moderno, não fosse a sua linguagem de bas-fond, cheia de palavrões e sexo. Impossível um discurso lógico em sua fala, ao contrário do Mangue Beat. É aí que talvez pudéssemos aproximá-lo a Bispo do Rosário com sua técnica de assemblage e seu amor à taxonomia. Psicótico e também marinheiro, como havia sido Damião, Bispo retirava do lixo os seus materiais, o que dava a seu trabalho uma conformação ao tempo. Ambos foram contemporâneos. Se o discurso de Bispo esvaziava-se de uma lógica narrativa, uma vez que a idéia de coleção retira o privilégio de determinados materiais em relação a outros, o discurso de Damião também o fazia. “Todos são iguais, homem ou mulher, preto ou branco, todos são iguais”. E aí, creio, está a base de seu trabalho e o sentido que toma a palavra lama: “ Porque todos nós iremos para a lama. Porque depois que nós morremos, a gente vai para o chão, se a gente é queimado, depois as cinzas, a gente põe no chão e elas viram lama. Então eu digo: Planeta Lamma. É o planeta mais certo que existe no universo. Porque todos ali são iguais, um não pode falar do outro porque todos vão para ali, para serem eles mesmos, podem ser brancos, amarelos, pode ser encardido. Pode estar lindo, pode estar bem pintado, pode ter a maior mansão, tudo de confortável, de repente bateu o coração, e vamos todos nós para o Planeta Lamma” .

Não é à toa o nome “Damião Experiença”. A palavra “experiência” tem em Damião um status tal e qual a palavra “lama”. E se pensarmos bem, ambas se equivalem. Aliás, sua biografia está quase toda nas canções. Não nego que ao me remeter a “Jimmy Hendrix and Experience”, e mesmo “Fátima Bernardes Experiência”, fui levado inicialmente a pensar a “experiência” no sentido científico do termo: um laboratório de experiência, experimentações científicas como o skylab americano. A questão é que, dessa forma, pode-se mergulhar numa determinada prática, em detrimento a outras do senso comum,
e então instaurar-se um processo de hierarquização. Os movimentos vanguardistas do século passado caíram nessa armadilha e acabaram apenas invertendo o platonismo, o que os impediram de uma alternativa real à Metafísica.

Mergulhar no seio da experiência, desarticulando qualquer possibilidade de discurso, é aonde nos leva as canções de Damião, alguém de olhos e ouvidos bem abertos ao seu tempo. E lá vai a sucessão de suas imagens:

“o erro foi meu, casar com mulher furada, que outro comeu”; “a mulher que faz aborto não tem pena do seu próprio corpo… para evitar, deve tomar no ânu o ano inteiro”; “vamos deixar de lado a TV – máquina doida”; “a música é pátria do universo, não tem fronteira”; “planeta lamma – 27 palmo debaixo da terra, pode ser barões, ladrões”; “a droga é a história do universo, a língua das pessoas é mais suja do que as drogas”; “o mundo é minha pátria – eu abro a janela, uma aquarela”; “não gosto de ditadura, tem fingimento com abertura”; “sou a favor da natalidade, de tudo que é vida”; “a camisinha é pra pegar dinheiro”; “gurilões, bichos da cara preta”; “minha mina me largou por outra mulher, eu só gosto de mulher sapatão”; “Adeus, Adolfo Hitler, Eva Brown”; “Volta Getúlio Vargas para se encontrar com Fidel Castro”; “Vamos fazer açúcar para exportar para a Rússia”; “os homens estão virando mulher”; “os bichos da cara preta matando de escopeta, não têm medo de careta”; “Rastafari é ser livre”; “vim lá do sertão em busca de solução”; no xadrez – lá mesmo me tornei um vagabundo mesmo sem querer”; “estou desempregado, sem comer e sem dormir”; “você é negra, seu irmão também era negro, quem matou ele? Você sabe muito bem”; “a lida do morro, a vida do morro, os homi desceram, deixando atrás o ódio e a dor”; “o povo da América Central é tudo raçudo”; “morro do galo, era tudo natural, agora não é mais, é tudo artificial, pão com doce pra dar gosto na erva natural”; “só os mendigos salvam o planeta”; “mamãe não quer que eu seja homem não, que homem tem que trabalhar, metido a machão, usa chifre na cabeça pra dizer que é machão”; “o mundo foi bem feito, todo mundo tem defeito, ninguém é direito, não adianta prender, bater, matar, vocês só sabem criticar as mulheres da rua, os travestis, as mariposas”; “eu quero uma mulher livre, que seja humilde pra casar com Damião Experiença, uma mulher bonita pra me sustentar, que saiba passar, que saiba gozar, eu não ando com mulher de graça”; “eu vou para a praia de Havana plantar banana, Havana – cidade maravilhosa de América Central”; “eu não me sinto envergonhado de dizer que nunca trabalhei”; “eu sou peixe, sai do meu pé… mas eu estou aqui na terra, eu não gosto de mar”; “eu não nasci no Brasil, eu nasci na União Soviética, minha mãe é cubana, meu pai é revolucionário, militar da União Soviética, minha mãe é abolicionária”; “eu vejo com olho aberto a chuva levando barraco da favela”; “amor de mulher é dinheiro”; “o que está acontecendo eu já previa, rei de espada, dama de ouro… faria um jogo melhor se eu fosse um rei de ouro”; “eu gosto de apanhar de mulher, eu sou masoquista, ela pode bater, dá na minha cara, dá na minha boca, eu quero gozar a vida. Desde que ela me pague, ela pode fazer o que quiser comigo, eu quero uma mulher, me bate, me dê um bolachão”; “tenho raiva de quem trabalha, sempre fui sustentado por mulher”; “é livre ser Rastafari, eu sou é Rastafari lá do sertão”; “o mundo é dos inteligentes, dos espertos”; “o mundo é dos inteligentes, está dividido em duas potências”; “eu sou fã dos Estados Unidos e da Rússia”; “o papa visita a favela e não faz nada por ela, Papa papão, ta papando o meu próprio pão”; por que a razão de nós americanos da América do Sul não viajamos pra Cuba, para tirar as dúvidas dos jornais americanos que tanto criticam Cuba, falando de Fidel Castro; “homens da lei ficam fazendo certas maldades com essas pobres mulheres (prostitutas), dentro de suas casas vaidade, tanta coisa incubada, eles ficam com tanta raiva, pegam os travestis, mulheres das enxurradas, dando tanta porrada”; “marinheiro João Cândido foi um revolucionário da marinha brasileira… pqgou um navio, saiu baia a fora e gritou – ou liberta a chibata ou aumenta o fogo. Os Homi gritaram bem alto – a chibata ta libertada”; “qual o homem ou mulher que não faz o 1999? Eu não faço porque não gosto”; “meu pai e minha mãe batendo com cipó de caboclo, fui obrigado a fugir, assim mesmo agradeço o que ele fez comigo, quebrou minha boca, minha cabeça”; “Viajando pra Cuba e pra Cortina de Ferro, perturbado da cabeça, mamando as meninas mais novas. Não valho nada mas as mulheres ficam tudo em cima de mim, gostam da minha língua”; “os bichos da cara preta estão acabando o Brasil”; não tem nenhuma gravadora, eu financio o meu próprio acústico… é tudo de graça, não precisa comprar”; “eu quero casar com essa vagabunda, essa cadela arrombada. Estou brocha, já fui o maior cafetão do mangue”; “ eu nasci na Colômbia, Bogotá, vou fumar a pretinha de lá, vou navegar a branquinha de cá”; “ sábados, domingos e feriados, dias de cornudo ficar em casa”; “prostitutas enlatadas, casadas, tanto faz da zona, tanto faz da família”; “diabo tem chifre, demônio bota chifre no homem”; “eu sou a favor da vida, sou contra o aborto, toma no cuzão pra não fazer aborto”; “lésbicas, gays, mulheres que eu amo, elas trazem mulheres pra vocês e pra elas”; “mulher casada quer ser vaca de boi”; “eu casei e virei gay, todo gay é casado”; “neném, vai dormir que papai vai ser mamãe e mamãe vai ser papai”; “botei sua mãe na zona pra me alimentar”; “a mulher é a galinha, o homem é viado, ela fala pra ele – dá em cima de mim, viado!”; “eu só gosto de mulher que só gosta de mulher e toda vez que chegar em casa só encontro mulher”; “só gozar com aquela merda lá que tem em casa?”; “gayzão quer ficar casado pra disfarçar que é gay”; “eu sou casado, eu sou cornão, cornão casado, mas já estou velho, brocha, vou dar no pé”.

Esse é o vocabulário de Damião Experiença. E assim posto, parece mais uma bricolagem, juntando coisas incompossíveis, mas retiradas da experiência. Tara, vagabundagem, comunismo. Materiais retirados do lixo histórico e, ainda que antagônicos, postos lado a lado, como uma coleção de objetos. Qual dentre eles tem a primazia? Aí é que está. Pra quem viveu o ápice da guerra fria, deve mesmo ficar atônito ao ouvir Damião declarar-se fã da Rússia e dos Estados Unidos. “ E eu digo que a terra é um ser vivente, porque ela nos constrói e depôs nos destrói. É por isso que esse livro se chama “Planeta Lamma”, o planeta da verdade, da realidade, é a coisa mais certa que existe, não adianta, o ser humano como homem e mulher são todos iguais”.

A lama ou terra é a base, o fundamento mesmo de um discurso pragmático, anti-lamentação, ao contrário de Chico Science que vê a lama como negação humana e motivo para insurreições. A lama em Damião iguala, em Chico Science é luta de classes e estopim. A lama em Damião induz a transformação pelo trabalho, em Chico Science induz a revolução e a luta armada. A lama em Damião é um apelo a união dos diferentes, em Chico um convite a porrada. E se o instrumento dessa luta em Chico integra a tecnologia, Damião, se não a nega, ao menos não a endeusa.

Daí porque em Chico existe sempre dois mundos: “Pernambuco em baixo do pé, e minha mente na imensidão”; a lama e o caos; o passado e o moderno.

Com as roupas sujas de lama
porque o barro arrudeia o mundo…
eu sou como aquele boneco..
controla seu próprio satélite.
Andando por cima da terra,
conquistando o seu próprio espaço.

in “Um Satélite na Cabeça” de Chico Science

Em Damião, ao contrário, o mundo é um só: “e é aqui que termina as minhas histórias e meus versos, as minhas músicas. É o mundo, é o Planeta Lamma”.

OBS:
1- as seqüências de fragmentos foram retirados das canções de Damião Experiença e as citações, de seu livro (ambos encontrados no Portal do Daminhão);
2- As citações de Chico Science foram retiradas de suas canções.

– publicado AQUI, em março2010

exp-ronca-sol

S.G.R

 estive, ontem, no sistema globo de rádio.

confesso que deu uma arrupiada!

afinal, por quase quatro anos, apresentei o radiolla na rua do russel… lembra?

eu não passava por lá desde 1996.

mas não pense em motivos radiofônicos para o “encontro”!

quem me levou ao S.G.R foi…

yeah… skylab fez mini apresentação no mini/mini teatro usado pelo canal brasil.

mostrou, basicamente, o novo disco & algumas antigas… sem os hits mais conhecidos.

uma hora, cara a cara, com a leNda!

não, rogerio… o jogo do flu foi 2 a 2!!!

( :

the experience…

retirado do blog de nosso líder rogerio skylab (godardcity.blogspot.com.br):

O programa MATADOR DE PASSARINHO, que venho apresentando toda segunda-feira, à meia-noite, no Canal Brasil, foi programado para ter vinte e seis entrevistas. Até o momento foram ao ar oito entrevistas, mas já gravamos vinte e três. Na reta final de concluirmos as gravações, fui à campo na tentativa de fecharmos uma das últimas entrevistas e, provavelmente,  a mais difícil: Damião Experiença.
Foi assim que desembarquei na estação terminal do metrô: Praça General Osório. É ali que o nosso personagem procurado habita.
O seu endereço é desconhecido. Sabemos que reside na comunidade do Cantagalo, mas não sabemos exatamente onde. O produtor do programa, Heitor Zanatta, em contato com pessoas que já tiveram acesso à Damião, deu-me as piores notícias. Mesmo assim, fui a seu encalço com uma leve e vã esperança.
Rondei as imediações e fui até o elevador que dá acesso à comunidade. Desisti de subir e voltei na direção da praça. Chegando à avenida principal, ou ia na direção de Copacabana, ou ia na direção do Leblon. Decidi então pela segunda opção e, quando me pus a atravessar a rua, dei de cara com ele.
O próprio. Era Damião. Menos espalhafatoso, camisa abotoada até o pescoço, chinelo de dedo. Parece inverossímil, tamanha a coincidência. Mas era ele mesmo, setenta e sete anos, o baiano arretado que gosta de mulher lésbica.
E a gente ali em meio a avenida. Me pagou um café no bar da esquina. À certa altura, um mendigo bêbado se aproximou, o conhecia. Pediu-lhe cinquenta centavos. Fiz questão de dar para que se afastasse e pudéssemos continuar a conversa. Depois, Damião me informou que o mendigo era um turco rico que se perdeu nas drogas.
Conversamos muito. Muita gente das imediações conhece Damião. Me informou que estava quase cego : um dia amanheceu assim ; mas queria distância de médico.
Não me reconheceu. Porém, depois de dizer-lhe meu nome, soltou essa : você continua no Banco do Brasil ?
A conversa se desenvolveu em meio a delírios e lucidez. Disse-me que sua mãe era judia e seu pai, russo. Depois me falou que viajou recentemente para a Colômbia.
Falei-lhe do meu programa e que tencionava entrevistá-lo. Pediu-me que desistisse, que até o Jô Soares tentou levá-lo e não conseguiu.
Eu o fiz ver que ele era a minha principal referência. Lembrei-lhe do disco que fiz em sua homenagem, o SKYLAB III. Cheguei a dizer-lhe que era um gênio, mas ele fez pouco das minhas palavras.
À certa altura, perguntei-lhe se era boato o que cheguei a escutar várias vezes: atribuíam-se aos Novos Baianos o arranjo e a execução de alguns de seus discos. Ele prontamente negou, chegando inclusive a informar que os Novos Baianos nem o conheciam. Depois, me garantiu que ele próprio tocou todos os instrumentos.
Falamos de muita gente, desde André Midani, que, segundo Damião, chegou a convidá-lo várias vezes a assinar contrato, até Caetano Veloso que, para ele, é música de viado.
Quando perguntei se tinha muitas mulheres, me falou que atualmente estava broxa.
Em seguida, me perguntou se eu era casado. Eu quis negar. Percebi que sua pergunta era uma afirmação, assim como também percebi a distância imensa que nos separava. Eram seus momentos de extrema lucidez : nada lhe escapava.
Não sei se por vergonha, por piedade, ou mesmo por algum estranho senso de realidade, respondi que era fodido. Ele não compreendeu.  Eu repeti : eu sou fodido. E ele replicou : eu sou mendigo.
Num dado momento, um rapazinho me reconheceu e quis tirar uma foto. Mas nesse instante, Damião desapareceu.
Cheguei a avistá-lo em seguida, um pouco à frente, num ponto de ônibus  (gosta de andar de ônibus pra desanuviar a cabeça). Alcancei-o e o agradeci por tudo.
–  obrigado por que ?
Foram suas últimas palavras.